“Isso não é um estilo musical”. Essa é a frase mais ouvida quando o assunto é samba-rock. O estilo, ao contrário do que muitos pensam, refere-se a passos de dança de salão. Tal como o forró, o bolero, o foxtrote ou o samba de gafieira, o samba-rock é dançado em pistas de baile, com passos específicos, não ensaiados ponto a ponto, mas arranjados e decorados no dia-a-dia das casas de gafieira e outras do gênero.

A dança tem origem paulistana e permanece sendo cultivada no Estado de São Paulo. Esse é, para Tony Hits, presidente do Clube do Samba-rock, um dos motivos de alguns sambas modernos, com estilo de funk, receberem o nome da dança. Luciana Reis, 32 anos, diz que aprendeu a dançar samba-rock aos oito, e o dançava com qualquer tipo de música. “Rock, jazz, samba, pagode, funk, groove. Era só tocar algo com ritmo percussivo que nós já colocávamos os passos de samba-rock no meio.”

Com a popularização da dança no país, e mais do que isso, de bandas que animavam as festas do gênero, o estilo passou a ser visto como ritmo musical pelo Brasil. A banda Clube do Balanço foi uma das responsáveis pela popularização das festas de samba-rock. Com músicas como “Saudades de Jackson do Pandeiro”, “Zamba Ben” e “Paz e Arroz”, o grupo nasceu em 1999, com o intuito de agitar um baile de samba-rock semanal.

O clima de descontração e o repertório envolvente do Clube logo conquistaram São Paulo e, posteriormente, o Brasil. Segundo Tereza Gama, vocalista da banda, “hoje você vê gente de todo jeito dançando o estilo; do pessoal da periferia à alta classe paulista, todo mundo vai.” O Clube do Balanço já passou pela Ásia, por toda a comunidade europeia e até pela Rússia, expandindo e explorando as possibilidades do samba-rock.

Engana-se, porém, quem pensa que esse agito paulistano só começou no final da década de 1990. O estilo de dança, segundo Tony Hits, tem mais de cinquenta anos. Seu Osvaldo Pereira, o primeiro DJ do Brasil, já tocava em bailes de samba-rock. “Essa dança foi criada na periferia de São Paulo pra trazer diversão pra quem não tinha dinheiro para ir às festas do centro, que eram muito caras e exigiam roupas finas”, diz Tony. O estilo foi incorporado, primeiramente, ao swing americano, importado à época. Depois foi a vez de se dançar samba-rock no ritmo das gafieiras. “Com o tempo foi havendo uma mistura de músicas que tinham ritmos pra esse estilo e foram sendo inseridas no arquivo dos DJs”, avalia Hits.

O Clube do Samba-rock foi criado no intuito de canalizar as diretrizes do gênero, em um projeto que unia DJs e professores de dança, que ensinavam a doutrina do ritmo em casas noturnas. O resultado foi positivo: ampliou o público dançante, além de reapresentar e promover um compartilhamento entre as periferias da cidade, que já não tinham o samba-rock como movimento forte.

A atenção dada ao gênero promoveu uma difusão da dança em toda São Paulo, que passou a contar com casas noturnas específicas para o samba-rock. Segundo a dançarina Luciana Reis, que tem a palavra samba-rock tatuada no corpo, o ritmo era dançado em bailes “nostalgia”, com flashbacks. Hoje se dança samba-rock, também, em festas de black music. “As baladas têm, geralmente, duas pistas: uma com hip-hop e outra com samba rock. O jeito da molecada dançar já é diferente do dos meus pais, eles giram mais, dão mais ‘nós’”, avalia Luciana.

Seja com mudanças na maneira de dançar ao longo do tempo, com adaptações no estilo ou sendo considerado um gênero musical, o samba-rock tem tudo para conquistar o Brasil. Esse processo já teve seu início com figuras como Paula Lima, Funk como Le Gusta, Seu Jorge, Faro Fino e o próprio Clube do Balanço que, muito além de confundirem o gênero musical com o estilo de dança no imaginário popular, apresentaram um outro tipo de expressão de origem negra e urbana. A proposta do Clube do Samba-rock, bem como de vários dançarinos do estilo, é a de ampliar, sempre mais, seu público, a fim de que a difusão do gênero não seja perdida.

 

Confira o vídeo do casal Mosquito e Ana Paula dançando samba-rock.

 

Confira o clipe da música Saudade de Jackson do Pandeiro, do Clube do Balanço.