Em 1987, 25 anos após a fundação da Universidade de Brasília, um evento, também ousado, povoou as cabeças e animou a sensibilidade de jovens brasilienses, que viviam época de grande conturbação política, econômica e social. O Festival Latino-americano de Arte e Cultura (FLAAC) trouxe estudantes, artistas e gente de cultura de toda a América Latina a Brasília, com o objetivo de promover o diálogo e a aproximação entre os povos distintos de nossa América.

Muito além de um encontro de arte e cultura dos países envolvidos, o FLAAC foi um momento para o autoconhecimento da juventude latino-americana. Em meio a realidades angustiantes que o desgaste da década provocou nas nações latino-americanas, com as liberdades sufocadas, os jovens que aqui estavam puderam entrar em contato com as condições políticas, econômicas e sociais dos demais países participantes e encararam a compreensão e vontade de mudança da situação de seus países pela cultura e pela arte.

De certo modo, eles puderam encarnar aquela disposição preconizada por Martí, para caracterizá-los: “Os jovens da América arregaçam a camisa ao cotovelo, afundam as mãos na massa e a levantam com o fermento do seu suor. Criar é a palavra de senha desta geração” (Nuestra América, José Martí). O FLAAC, como exortou o reitor Cristovam Buarque da UnB naquela ocasião, constituiu-se em um espaço fecundo para uma rica experiência de criação.

Agora, em 2012, ao completar 50 anos a UnB retoma as atividades do FLAAC, como centro das celebrações de seu jubileu, em uma produção que envolverá toda a comunidade acadêmica e o público brasiliense em geral, em um debate cultural intenso, contando com patrocínio e parcerias cuja significação mais amplifica o sentido de relevância que esta forma de celebração pretende realizar. O Flaac 2012, dessa vez, contempla manifestações artísticas e culturais não só da América Latina como do continente africano e dialoga com as influências que esses dois continentes tiveram na formação cultural do Brasil.

Trata-se de responder com Darcy Ribeiro que a América Latina existe acima das “linhas cruzadas de tantos fatores de diferenciação” para edificar sociedades étnico-raciais cujas populações querem continuar fundindo-se com o amálgama cultural forjado na riqueza desses próprios fatores de diferenciação.

 

José Geraldo de Sousa Junior

Reitor da Universidade de Brasília

 

Certamente, o lugar do conhecimento é o espaço da existência humana, onde afloram as nossas fragilidades, necessidades, sonhos e desejos. Nesse lugar, e na presença do outro, desenvolvemos identidade, nos constituímos sujeitos; somos instados a aprender; a nos relacionar com a natureza; a produzir cultura.

Por conta dessa dinâmica, há mais de um século Freud percebeu que cada vez mais nos tornávamos “deuses de próteses”. Esse fato seria uma decorrência da nossa capacidade de incorporar a arte, as ciências e as tecnologias, seja na perspectiva construtiva e transformadora da sociedade, seja nas estratégias que promovem e sustentam as distâncias sociais, as exclusões, as carências, as injustiças.

A Universidade é um dos espaços privilegiados na produção e articulação de saberes com vistas à superação dos nossos limites. E a Universidade de Brasília, no alto dos seus cinqüenta anos, é um exemplo nesse sentido pela sua gênese, seu projeto político-pedagógico e seu protagonismo nas lutas pela transformação da sociedade brasileira.

É a história da UnB que o Festival Latino-americano e Africano de Arte e Cultura, o Flaac 2012, vem evocar. Aqui reside a relevância desse evento; reafirmar a formação sócio-histórica desta Universidade, as nossas raízes latino-americanas e nelas o componente africano. Duas décadas e meia após a sua primeira edição, distintas gerações de homens e mulheres terão o privilégio de vivenciar no olhar do outro (a) a expressão da felicidade de um grande encontro que reverencia a UNB que tanto amamos: cinquentona e linda nas suas formas; lúcida, transgressora e instigante; inclusiva, emancipadora e antenada com as grandes questões do seu tempo.

 

Oviromar Flores
Decano de Extensão da UnB

 

Ao olhar para nosso passado, o continente africano. Para os lados, os companheiros latino-americanos. Para o futuro, uma idéia se faz presente: a integração entre povos e lugares e o Brasil, por meio de uma leitura contemporânea do conjunto de relações culturais. Assim se constroem as comemorações do cinquentenário da Universidade de Brasília (UnB), que terá como eixo estruturante o Festival Latino-americano e Africano de Arte e Cultura 2012 (Flaac 2012).

Entre 21 de abril e 10 de agosto, os campi da UnB, os espaços culturais de Brasília e as embaixadas nos apresentarão os caminhos para reconhecer e valorizar essas matrizes culturais latino-americanas e africanas. Muito além de shows, exposições de arte, espetáculos teatrais, performances, seminários, conferências e debates acadêmicos, a programação do Flaac 2012 proporcionará diálogos entre a arte e a cultura dos países envolvidos, com um olhar atento para seus reflexos políticos, econômicos e sociais. Ao integrar e ressignificar, incluímos esses saberes no cenário contemporâneo.

O conhecimento que se forma na academia deve servir a toda a comunidade. Por isso, o Flaac 2012 não se restringe aos campi. Vários pontos da cidade vão receber destaques da programação. Ao final, os resultados desses encontros ressoam na UnB, seja no aprofundamento de políticas afirmativas ou na produção de conhecimento acadêmico. E o ciclo se renova.

Mais do que um presente para a cidade, o Flaac 2012 será o momento de experimentar o sonho de integração entre os países da América Latina e o sonho de respeito e igualdade com o continente africano. E nada melhor que os 50 anos da UnB, universidade que também nasceu de uma utopia, para celebrar esses sonhos.

 

Zulu Araújo
Coordenador-geral do Flaac 2012 e diretor da Casa da Cultura da América Latina