O Festival Latino Americano de Arte e Cultura (Flaac) nasceu como um eco do grito de liberdade que agitava a sociedade brasileira, após décadas de um conturbado período político. O regime ditatorial, instaurado em 1964, chegava ao fim e o processo de redemocratização acendia a esperança no país. O nó na garganta foi desatado. E a primeira edição do Flaac, que aconteceu de 13 a 25 de setembro de1987, surgia como palco para as múltiplas expressões que permaneceram por tanto tempo caladas.

A ideia foi do professor Cristóvam Buarque, primeiro reitor da Universidade de Brasília (UnB) a ser eleito democraticamente desde 1979. O evento foi criado para comemorar os 25 anos da UnB. A professora Laís Aderne, o ator Guilherme Reis, a arte-educadora Maria Duarte e o diretor de teatro Dimer Monteiro também encabeçaram a organização. Segundo o projeto inicial, o Festival deveria acontecer de dois em dois anos.

Além de criar um espaço de fala, havia um outro princípio que norteava o Flaac: a integração dos países latino americanos por meio da arte e da cultura. “Só há um futuro possível para os países da América Latina: é o futuro comum a todos os países da América Latina. Só através desse projeto comum será possível aos povos da América Latina estancarem “as suas veias abertas”, formularem projeto alternativo, onde a democracia e a soberania sejam ditas no singular, ao mesmo tempo, por todos e para todos nós”, proferiu o reitor Cristóvam Buarque na época.

Assim, o campus Darcy Ribeiro se abriu para todos os idiomas e sotaques latino americanos. E também para as mais variadas expressões artísticas: música, teatro, dança, literatura, artes plásticas, fotografia, cultura popular e arte-educação estavam presentes nessa primeira edição. Isso, sem esquecer, os importantes debates políticos e acadêmicos. O poeta nicaragüense Ernesto Cardenal, a atriz equatoriana Tamara Nova e o multi-instrumentista Hermeto Pascoal foram algumas das personalidades que passaram pelo Flaac.

Em 1989, a expectativa com a segunda edição do Festival era grande. Empresas foram contratadas para ajudar na organização e artistas de renome no continente foram convidados. Uma crise político-econômica, no entanto, obrigou os organizadores a realizarem significativos cortes orçamentários. Com isso, contratos foram desfeitos e o evento teve que ser redimensionado. Apesar disso, artistas como a cantora argentina Mercedes Sosa, a cineasta Coco Fusco, o cantor Raimundo Fagner e a sambista Beth Carvalho participaram da segunda edição do Flaac, que aconteceu entre 4 e 13 de agosto de 89.

As dificuldades de organização com o segundo festival e a instabilidade econômica que ainda assustava o país no início da década de 90, tiraram o fôlego do Flaac. Assim, o evento acabou sendo retirado da agenda cultural e acadêmica da cidade. Apesar de seus altos e baixos, é inegável a rica contribuição que suas duas edições deixaram para a história da UnB, de Brasília e da própria América Latina.